1 de março de 2012

Dá-me um jeitinho, por favor?


Quando admitimos estar condenados a ser eternamente insatisfeitos, sabemos que ainda nos resta um bocadinho de humanidade. Quero que tenhas saudades minhas não quero ter saudades tuas quero que tenhas tempo para todas as folhas de jornal que carregas não quero ter tempo para saber do mundo quero que te entregues a canções monstruosas não quero ouvir música sem ti quero que encontres mais recantos para nós não quero perdê-los de vista. Assim, sem vírgulas, porque sinto tudo sem pausas. Aquela agressividade que me fica tão mal às vezes é a que me faz agarrar tudo com mais força – agarrar-te com mais força. Pode ser assim, encore une fois? 

Com licença, então, que a minha assertividade emocional vai passar.

1 de fevereiro de 2012

Das nove às cinco.

"Um dia vou ser florista", anunciou a criatura cheia de si, desesperada por esconder-se entre o rebanho, que das nove às cinco, mais coisa, menos coisa, faz a vidinha para depois ir à vida. A verdadeira, aquela dos prazeres e da ociosidade, a que está para lá da porta número 3, 21, 52, 117 (é favor preencher conforme a sede fiscal da respectiva entidade laboral).

O mundo está cheio de floristas que ainda não o são, que preenchem o boletim do euromilhões com sonhos e deixam os números cair das algibeiras, no café, no hipermercado, nas contas da água, da luz, do gás, do conforto. O Fado é Património Imaterial da Humanidade e a Sobrevivência é o Pão-Nosso-de-Cada-Dia, o tema de conversa em todas as bocas e a principal causa de morte da cidadania portuguesa.

"Um dia vou ser florista", repetiu a criatura, engolindo em seco ao seguir o rasto de um avião, por perceber que nunca teria (nem quer ter) coragem de partir.

25 de dezembro de 2011

Em inglês soa sempre bem.

Zip, zip. Unlock and zip again. Skip to the end of it, to the tears of it, to the victories and defeats of it. Because it all bursts, somehow. And then repeat step one: zip, zip. Zip it all inside, so it doesn’t roth with the world, so it doesn’t get caught up in the moment, so it doesn’t lose its rawness. So it stays true. And yours, just yours. Not everybody else’s. Zip it just before you start dying with it. There’s not enough space for everything you want to keep – so unlock and zip again. And again, and again, and again. And you will marvel at how it never ends.

18 de abril de 2010

Desespero pela simplicidade.

Doem-me os olhos de não dormir há mais de 24 horas. Doem-me os olhos que, mesmo abertos, nada captam, como a máquina fotográfica apontada ao mundo sem ninguém que lhe dispare o flash.

É isso: o mundo aqui à minha frente e eu imóvel. Porque sou pequena, porque tenho medo da infinidade de possibilidades, porque não gosto de todas as cores, nem de todos os cheiros, nem de todos os sítios, muito menos de todas as pessoas.

O mundo aqui à minha frente e eu perplexa, porque a minha ambição foi bem educada e, por isso, é humilde.

Em escuta: "Don't Ask", Grizzly Bear

20 de janeiro de 2010

Coisas de antes.

A partir de uma certa altura, a minha história, com mais ou menos personagens, tem sido sempre a mesma: sou a miúda que procura resgatar o mundo que, aparentemente, lhe passou ao lado. Quero viver num cantinho de mundo onde a agressão seja uma coisa mais distante e a alegria de viver seja palpável. Vivo rodeada de gente que, a cada dia que passa, está mais próxima do abismo. Gente que carrega todos os dias no rosto uma insatisfação insuportável por não estar onde gostaria, por não ter o que quer – e, assim, a felicidade é uma coisa “dos outros”.

Hoje, apetece-me chorar por todas essas almas desistentes que decido abandonar.

*


Aproxima-se a altura de fazer as malas novamente e desta vez fá-lo-ei apenas por mim e pela vontade de viver mais do que isto que me tentam impingir. E é por isso que a bagagem será leve; o objectivo é começar do zero, desenhar o meu próprio esboço e dar-lhe forma depois, com todos os lápis de altos e baixos que for comprando pelo caminho.

Está quase na hora – não sei se quero uma anestesia ou se quero sentir tudo.